Vida de Professor II
Posted by Cabelo on May 19th, 2012 filed in Crônica do CabeloComment now »
Vida de Professor II
Pois é, essas coisas que acontecem e que justificam nossa escolha, professor, nos fazem seguir em frente quase que contra a maré ou dando murro em ponta de faca…
Cheguei a aula, quarta-feira, na Escola Estadual em que sou professor de Língua Portuguesa e ao entrar na classe duas alunas correram para mim com largos sorrisos. Uma delas é uma aluna que já me causou reações e impressões diversas: descaso, dó, vontade, raiva impotência…
Essa menina está no sétimo ano (6A série), mas a conheci ano passado, ainda na 5A série, quando eu dava aulas da extinta disciplina na grade curricular estadual: Leitura e Produção de Texto. Assim, só a via duas aulas por semana e ela passava quase que desapercebida tão retraída e quietinha ela era. No meio do turbilhão que é uma sala de 5A série - sinceridade, parece uma selva, e aos professores cabe um adestramento que não ocorreu nos anos/séries anteriores. Foi um choque quando comecei.
Bom, adestramento em curso começou a me chamar a atenção que aquela aluna tão calminha era também tão apática e lerda mesmo. Ela não conseguia nunca terminar de copiar o que eu colocava na lousa, não fazia lições, não gostava e se recusava a ler para a turma quando chegava sua vez. Parecia um daqueles casos de aluno de inclusão, embora a Coordenadora afirmasse que não. Outros professores me diziam que ela devia ter algum problema, talvez algum retardo, ou alguma dificuldade maior que os outros.
Continuei e passei a pegar no pé dela para que ela lesse e para que ela terminasse as atividades na sala. Cheguei a deixá-la sem recreio algumas vezes para que acabasse as lições e tudo. Fiz ela ler os textos só para mim, durante a aula, ou nos castigos durante o intervalo e percebia a grande dificuldade dela para ler. Ela lia, empacando, hesitando, a cada palavra se aproximava do livro ou da lousa, sentia vergonha, ria e pedia para parar. Mas eu insistia, não podia ser assim, teimoso eu a obrigava a continuar.
Certa vez, já em agosto, num dos recreios que ela ia perder novamente, acho que eu estava mais descansado, mais calmo, talvez o adestramento estivesse surtindo efeito na turma, sei que de repente me deu um estalo ao observar bem como ela fazia para ler… Me senti um insensível, inapto, injusto… Perguntei para ela se de onde ela estava sentada enxergava a lousa, ela riu sem graça, eu insisti, ela fez que não. Como pude ser tão cego!?
A coitada da menina tinha problema de visão, até para ler o livro ou o caderno era difícil. E me confessou isso. Indignado indaguei se ela já tinha dito aos pais, já, se já tinha ido ao médico para verificar qual o problema, já, se precisava de óculos, sim, e cadê os óculos? Sem resposta. Timidamente ela disse que o pai sempre dizia que na semana que vem faria, na semana que vem e nunca fazia.
Passei a ter outra visão da situação, falava pra ela sentar na frente e foi assim até este ano. Em fevereiro conversei com a Coordenadora que teve muita pena, comentei que pensava em pedir a receita do médico e fazer os óculos da menina, mas ela me demoveu de tal intuito: poderia ser mal interpretado, os pais poderiam achar que havia algum interesse escuso, ou que seria humilhante, foram tantos senões que desisti. Mas como isso me incomodou! A menina passava por retarda para alguns professores e tinha uma dificuldade enorme de aprendizado apenas por algo tão simples! É revoltante esse mundo!
Mas assim foi e quarta-feira ela e a amiga me receberam muito sorridentes. A amiga veio dizendo que a outra queria me mostrar algo - desta vez não tive pensamentos ruins e preconceituosos - e sacou do bolso os óculos novinhos. Falei na hora “Poxa! Mas porque você já não está usando?” E ela colocou toda orgulhosa! Agora sim. Estendi a mão para que nós tocássemos como uma comemoração, ela bateu na minha mão contente!
No fim da aula, ela insegura veio me perguntar se estava bonita com os óculos e a amiga me falou que ela estava com vergonha de usá-los. “Está linda! Pode colocar os óculos que está muito bonita!” Saiu contente e eu fui para casa com uma felicidade diferente, uma mistura de alegria e alivio, uma espécie de bem estar que não lembro ter experimentado antes.
Paulo Roberto Laubé
CABELO
Papo de Butequim - Ame o próximo
Posted by bogadolins on May 18th, 2012 filed in Papo de Butequim1 Comment »
“Ame o próximo como se fosse a sexta-feira”
Frase da internet, em busca do autor
Dia do Internauta - Change Your Words, Change Your Wold
Posted by bogadolins on May 17th, 2012 filed in Dia do Internauta1 Comment »
Dia do Leitor - Qual é a Tua Obra
Posted by bogadolins on May 16th, 2012 filed in dia do leitor1 Comment »
Dentro do meu escopo de trabalho, volta e meia aparece o incomodo papel de indicar palestrantes para empresas. Por conta deste detalhe, venho me deparando com inúmeros nomes, sobretudo vendedores, marqueteiros e consultores que prometem revolucionar resultados empresariais e pessoais.
Sem querer entrar no mérito de cada um, afinal não sou eu que tenho que avaliar se tal palestrante correspondeu ou não as expectativas e sim o cliente junto ao seu público, mas foi justamente neste meio que me (re)encontrei com Cortella. Já havia algum tempo que seu nome aparecia como uma ótima referência de palestra para públicos variados como consultores, vendedores, gerentes e lideranças. O mais curioso, porém, é que Mário Sérgio Cortella não é formado em marketing, nunca foi vendedor e sequer esteve a frente de alguma multinacional, ou coisa parecida.
Sua formação? Teologia, filosofia e com doutorado em educação. Cortella escreveu pelo menos uma dezena de livros, algo que já o tornava familiar para mim, um livreiro que durante três anos vendeu uns tantos exemplares do dito autor. Porém, foi com o meu novo ofício que me deparei com esta maravilhosa obra que indico para todos, seja ou não interessado em literatura.
Após planejar, junto aos demais colegas envolvidos, um evento para as lideranças de uma grande multinacional da área de alimentos que acabara de se juntar a outra grande empresa, precisava indicar um livro que falasse diretamente com este público e chamasse a responsabilidade para o que estava por vir.Eis que em uma visita à Livraria que eu mesmo outrora vendia Cortella, deparei-me novamente com este livro.
“Qual é a Tua Obra” utiliza conceitos filosóficos para falar sobre gestão, liderança e ética, portanto uma obra ótima para quem está à frente, ou gostaria de estar, de qualquer empresa. Porém, o mais interessante sobre o livro é que justamente ele vai de encontro ao que a maior parte destes velhos e novos autores pregam.
Primeiro de tudo, planejamento. O livro como um todo é uma ode ao planejamento, de como ser como pessoa, como profissional, como líder, como empresa e, sobretudo, como Ser Humano. Nada de acreditar que você é o máximo, que você está à frente de todos, como alguns livros de auto-ajuda empresarial dizem por aí. Para Cortella, este é o primeiro passo para “A Síndrome do General Sedgwick”, algo que vou deixar que os leitores descubram por si mesmos.
Desta forma, trazendo conhecimentos inesperados para um tipo de pensamento que costuma dar voltas em si mesmo, Cortella passeia por Aristóteles, a Bíblia, Thomas Edison, Domenico de Masi e suas próprias experiências, tais como a de professor e à frente da Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo. No final, ou mais precisamente, logo no início, fica claro objetivo do livro: lembrar para as pessoas que elas devem, para si mesmas, deixar um legado, uma obra, e que isto é que deve inspirar seu trabalho e seu cotidiano. Nada de estresse, cansaço e muito, mas nada de não enxergar o porquê de se fazer o que faz.
Detalhe: sua palestra é de fato maravilhosa, uma verdadeira epifania. Fica a dúvida qual é a melhor experiência. Ler este livro instigante e, de alguma forma, pertubardor, ou ouvir este habilidoso orador ao vivo.
Boa Leitura!
Papo de Butequim - O Melhor do Michel Teló
Posted by bogadolins on May 14th, 2012 filed in Mora na Filosofia1 Comment »
“O Melhor do Michel Teló é que ele me fez esquecer o Luan Santana”
Bogado Lins
Crônica do Bogado - Está Faltando Ela
Posted by bogadolins on May 13th, 2012 filed in Crônica do Bogado1 Comment »
Naquela mesa está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim. Depois de cerca de dois anos, a dor, no lugar de cessar, fica maior. Minha mãe tinha problemas, muitos, mas era sobretudo minha mãe, muito mais que isto.
Minha mãe, na verdade, por vezes deixava de sê-la, para ser minha amiga. Ora eu esquecia que ela era minha matriarca, ora ela esquecia de sua maternidade. De todo o modo, não importava, ela estava lá. Agora, porém, não está mais.
E mesmo depois de uma briga que manteve-me longe durante cerca de dois anos, a primeira pessoa que informei que em breve teria o meu filho foi minha mãe e isto nos reaproximou. Naquele momento, ela era mais que minha mãe, era a avó do meu filho.
Certo que nada jamais foi como antes. Uma barreira se quedou entre nós desde então, algo que me impedia de expressar com clareza o que eu queria dizer e sentia que a recíproca era verdadeira. E assim foi, até a data de sua morte.De certo modo, contudo e todos os entretantos, a distância tirava-me minha amiga, e tornava-a definitivamente minha mãe. Uma bem diferente da que estava acostumado, distante, não mais apenas pela distância entre as cidades.
Mas ela continuava lá, sentada em sua mesa, com seu copo de cerveja. Reunia ao redor de si inúmeras pessoas que conduziam junto com ela uma jornada até o fim da noite naquela mesa. O objetivo maior era fechar o bar e abrir as possibilidades e impossibilidades que uma noite de boemia desperta no Ser Humano. Elas, a mesa e Maria Luiza, estavam sempre repletas: de amigos, de histórias, de cerveja e, já no final, cheia de vazio.
Mas ela continuava lá, sentada na mesa e com seu copo de cerveja. No final, pouco antes dela pedir a conta definitivamente, o resto da mesa estava vazia. Éramos apenas eu e ela, talvez meu pai na cabeceira. Mesmo assim continuava a preencher o quadro, colocando cada pessoa no seu devido lugar, como se ali sempre estivera. Tetê, com sua risada estridente, certezas e uma doçura bárbara que se manifestava de tempos em tempos para me desafiar. Luiz Carlos com seus poemas, dimensões paralelas, projetos culturais, amores eternos enquanto durassem, ets e etceteras. Jorge, gaúcho, macho sim senhor, que contava sempre uma nova piada de argentino para esquecermos, com risadas, que ele era macho até debaixo de outro homem. Rosangela com seus doces olhos azuis e uma bondade que transbordava, tornando-a uma verdadeira pintura renascentista. E Taparica, baixinha, cabelos crespos, óculos e, bom, isto é tudo que lembro dela.
Haveria tantas, tantas cadeiras que a mesa se estenderia naturalmente até o próximo bar. Porque lá encontraria-se D`Artagnan e seu irmão Arthur; Sérgio César, que de tão preto era azul e esculpia as favelas e cortiços que tanto conhecia; Paulo Lamas, o mais rico e mais mão de vaca da turma; Rita, única pessoa no mundo que votou no Collor; Profeta, que de interessante tinha a barba de messias, uma magreza escálida e olhos azuis arregalados; Vera Verão, preta, gorda e forte, contando seu último surto, quando cinco bombeiros não conseguiram segurá-la a fazer algo que supostamente não deveria. E tantos outros bêbados como Denis, estrangeiros como John, drogados como Mota, sambistas como Nelson, tropicalistas como José e até mesmo bandidos, como de fato houve, mas que pouparemos de nomes. Ali, naquela mesa, todos tinham um lugar, inclusive eu.
Ela mesma sentia falta de alguém na mesa: meu tio. Surfista, taxista e traficante. No final, após o axé de uma baiana e depois de provar no sangue todas as possibilidades que os psicotrópicos poderiam levá-lo em suas corridas, não se sabe por uma ou outra de suas paixões, foi, junto com Cazuza, um dos pioneiros no soropositivismo. Como última de minhas lembranças recordo dele já magricelo e pálido, desbelotando uma erva dentro de uma lata no jardim de uma extensa casa em Itaipava que, no final, quedou-se a mesa de minha mãe.
Ela era um elo, meu, seu filho, com um mundo que eu desconhecia e hoje é íntimo. Não só meu, mas também entre toda a sua turma que mudava organicamente e estava sempre a se preencher sozinha. Ela era a dona da turma e estava sempre na cabeceira da mesa.
E hoje a mesa continua, nunca está vazia, graças a Maria Luiza, mas está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim.
Papo de Butequim - Bogado Lins
Posted by bogadolins on May 11th, 2012 filed in Papo de Butequim1 Comment »
Pobre, quando precisa de dinheiro, pede para você emprestado. Empresário é mais chique, te chama para ser sócio.
Bogado Lins
Oficina Literatura Cotidiana - Euclidiana de Vinicius Rufino
Posted by bogadolins on May 5th, 2012 filed in Oficina Literatura CotidianaComment now »
Vinicius Rufino participou da última oficina do Literatura Cotidiana do mês de março no Sesc Campinas. É um poeta de mão cheia e que exibe uma literatura vigorosa e que promete. Clique no vídeo e assista o poeta recitando sua própria obra
Para ver mais sobre a primeira parte da oficina, clique na página no canto superior da tela ou no link abaixo
Oficina Literatura Cotidiana Sesc Campinas 1º Parte
Oficina Literatura Cotidiana - Rumo a São Carlos
Posted by bogadolins on May 4th, 2012 filed in UncategorizedComment now »
Tudo começou numa participação na Casa das Rosas em Oficina de meu amigo e grande artista Saulo di Tarso. Depois, a oficina tomou forma e fez uma incursão de dois meses pelo Sesc Campinas onde tive o prazer de conhecer pessoas maravilhosas e de grande talento como Aparecida Ventura, Paula Negrão e Ivanildo, dentre outros que fizeram incursões mais rápidas. Em breve, em data ainda a ser definida, abrirei uma página com o trabalho destes poetas, escritores, contadores para visualização no Literatura Cotidiana.
Agora o próximo passo será o Sesc São Carlos, onde a oficina será ministrada em três dias seguidos neste mês. Um verdadeiro intensivão de compartilhamento de literatura e experiências. Portanto, para os interessados, aqui vai o serviço
Sesc São Carlos
dia(s) 15,16 e 17 de maio
terça à quinta das 19h30 às 21h30
Grátis
A Essência dos Adultos está nas Crianças - Fernanda Mellendes
Posted by bogadolins on May 2nd, 2012 filed in co-laboreComment now »
Lá estava eu dentro da sala de embarque do aeroporto. Havia tido uma maravilhosa Páscoa em família quando fui surpreendida por uma menininha, no ápice dos seus cinco anos, indo em direção à sua mãe pulando com apenas um pé e gritando alegremente. Foi então que um pensamento me tomou mente naquele instante: se um adulto fizesse isso, exatamente os mesmos atos da tal menininha, na mesma situação, seria taxado de louco em poucos segundos.
Isso me faz indagar sobriamente: por que crescemos e perdemos essa liberdade?
Foi o que me motivou a querer escrever sobre esse tema, refletir sobre como somos tolidos para sermos moldados a um padrão estipulado por uma sociedade quase de ditadura. Os comportamentos são aceitáveis dentro daquilo que a mídia dita como certo, coerente, bonito e que deve ser seguido.
A veracidade como os pequenos seres (crianças) conseguem transmitir um sentimento é tão profundo, tão tocante, e, principalmente, tão real.
Vimos um último vídeo com uma criança estourar na internet: o da Julie. Uma menina muito fofa e esperta, que com poucos anos já mostrou que tem identidade. Ela ensina diversas coisas por meio de vídeos tutoriais, publicados no youtube. Nos primeiros ela ensina a fazer maquiagem, enquanto no último discursa sobre Bullyng - Vê-se logo cedo uma preocupação com o seu peso e o preconceito que ela sofre por ser “gordinha”
Muitos outros vídeos fizeram sucesso na internet baseando-se nas atitudes espontâneas das crianças, seja neste vídeo que David fica grogue com a anestesia do dentista
os gêmeos que conversam “Ta ta ta ta ta ta”
os gêmeos da formiguinha
a menina que chora pelo amor que sente pelo professor
E, enfim, se continuasse a lista precisaria dedicar um post apenas para ela.
O que todos eles têm em comum é a forma como essas “pessoinhas” demonstram seus sentimentos, como não sentem vergonha em expressar o que pensam e o que acreditam. Todos podem ser vistos de maneira tão pura e inocente a ponto de se tornar indagável a um adulto: como isso é possível? Como eles conseguem ter tamanha autenticidade?
Acredito que todos nós temos guardados conosco essas essências puras, livres do molde imposto por uma sociedade. De fato, as crianças ainda são puras, não foram lapidadas àquilo que é considerado “certo” ou “errado”.
No livro Pequenos Tratados das Grandes Virtudes do filósofo André Comte-Sponville, o autor retrata isso ao falar sobre a virtude da polidez:
“O Recém-nascido não tem moral, nem pode ter. Tampouco o bebê e, por um bom tempo, a criança. O que esta descobre, em compensação, e bem cedo, são as proibições. ‘Não faça isso: é sujo, é ruim, é feio, é maldade… ‘ ou: ‘é perigoso’, e a criança logo saberá diferenciar entre o que é mau(o erro) e o que faz mal (o perigo). O erro é o mal propriamente humano, um mal que não faz mal, pelo menos a quem o faz, sem perigo imediato ou intrínseco. Mas então por que proibi-lo? Porque é assim, porque é sujo, feio, maldoso… o fato precede o direito, para a criança, ou antes, o direito é apenas um fato como outro qualquer”.
As crianças não tem medo de errar, de perguntar, de questionar. Não há insegurança ou receio de parecerem patéticos ao cantar uma música desafinadamente em alto e bom tom ou de fazer uma abordagem para simplesmente brinca com o coleguinha que está ao seu lado. O mais admirável é ver nas crianças a falta de maldade da vida adulta, no que tange a malícia, os interesses e o pouco discernimento sobre a diferença entre o rico e o pobre, com a única motivação de brincar.
Certo dia, ouvi na rua uma criança perguntando a mãe: mãe por que aquela criança está dormindo na calçada? A mãe não soube como lidar com essa visão tão rica e ingênua. Notei aí a pureza em se questionar sobre uma realidade tão diferente do seu contexto e das suas vivências; na sua cabeça passava: por que aquela criança dorme na rua? Onde estão seus pais?
Quem dera se os adultos pudessem deixar livres as suas essências, sem ter que respeitar nenhum padrão e/ou pudor; se não fossem vistos como loucos ao dançar em meio a uma praça ou tomando um banho de chuva.
Com isto eu me pergunto: qual o real sentido da vida? As crianças vivem acerca da ótica de uma sociedade que não aceita comportamentos “anormais” A grande questão é: quais são esses padrões comportamentais? Quem os ditou? Quem disse que eu deveria ser assim?
Não quero parecer saudosista com o texto. Apenas mostrar que podemos aprender com as crianças e suas peripécias. Quero poder inventar histórias fantásticas e mirabolantes para realmente acreditar e viver nelas. Almejo relacionamentos como os vínculos infantis: sem maldade, sem malícia, sem interesse e, sobretudo, com pureza, leveza, amor e carinho.
O que eu considero mais engraçado é que que vivemos numa busca constante pelas nossa essência ou, na forma certa de sermos autênticos. Pagamos anos a fio de terapia para descobrir quem somos e o que somos internamente(essência). Adivinhe? A resposta não está longe, meus caros. Essa pergunta tem uma única solução: o seu passado. Volte alguns anos e tente se lembrar de como você vivia livre das amarras impostas, de como você pouco se importava com a opinião alheia e como o universo era leve, solto, como as coisas eram muito mais simples. Que tal se propor a perder um pouco as imposições do ser adulto para viver uma vida pueril por alguns instantes?
Tenho um filme que pode me ajudar e muito a decifrar o que estou dizendo: “Onde vivem os monstros”. Uma película indescritivelmente bela, pois aborda este tema: a nossa essência. Dentro de nós vivem inúmeros monstros, que buscamos omiti-los de todas as maneiras ao longo da vida. Para alguns, a infância é um monstro intocável, uma fase que é melhor deixar esquecida. Isso porque sofremos tanta pressão social de ser o que nos é imposto por uma cultura midiática, que ao longo do tempo, perdemos a nossa real motivação infantil. Se quando criança, estivemos fora do contexto, é melhor não se lembrar da melhor fase da vida, porque é sinal que a nossa infância foi um fracasso - na visão desses conceitos pré-estabelecidos.
A meu ver, os adultos deveriam aprender muito mais com a sabedoria das crianças, ter a criatividade tão liberta e livre como as crianças, além de se permitirem vislumbrar um universo habitado por criaturas inventadas e com construções de guloseimas. A fantasia faz bem, muito melhor se for em busca de desbravar um território imerso de aventuras, histórias e sentimentos: o nosso próprio interior - quem realmente somos.
E depois de todas estas questões, chegou a minha hora de embarcar no barco dos piratas maltrapilhos das ilhas Cayman em busca do tesouro que se esconde atrás do vale de chocolate. Fui!
Fernanda Mellendes é planner, cronista e, às vezes, uma criança.
